domingo, outubro 29, 2006

HISTÓRIAS DE QUANDO EU ERA DEE-JAY (II)

Ser dee-jay não é fácil. Sempre tem alguém pedindo alguma música pentelha pra tocar. O jeito é ser político, sorrir e ficar na sua – não é à toa que minha cabine ficava no alto e tinha um segurança na escadinha. Mas duas abordagens nessa época me chamaram a atenção.

Uma vez, um clone do Elvis Costello me abordou. E disse:

- Você antes tocava mais new wave. Agora toca umas musiquinhas de FM no meio. Pô, não faça isso. Volte pra new wave – é a esperança de uma nova música...

Fiquei meio intrigado com o tom de voz dele, com o ritmo das palavras. Perguntei:

- Você é religioso?

Ele, animado:

- Sou pastor.

- Pastor new wave.

- É.

Aí, eu disse:

- Seja feita a vossa vontade.

E fui pra cabine. De fato, o Costello tinha razão. Nunca mais toquei as tais musiquinhas. E o cara continuou a freqüetar o RC.

Outra história.

Era quinta-feira, e a casa estava vazia. A banda que iria fazer o show entrou no palco. Desliguei a pick up e desci da cabine. Quando estava na pista, vendo o pessoal afinar os instrumentos, um gordinho cabeludo chegou:

- Olha, você não toca heavy metal, isso é um absurdo. Eu quero que você toque pelo menos duas músicas do Iron maiden, pelo menos duas do Judas Priest...

Cortei o cara.

- Eu não tenho nenhum desses discos.

O cara deu uma risadinha superior e mandou ver:

- Eu já sabia que vc iria dizer isso e trouxe uma fita.

- Só que eu não vou tocar. As pessoas não vêm aqui para dançar heavy metal.

O cara começou a gritar e isso chamou a atenção de um amigo meu, o Enrico, e de três seguranças, que se postaram atrás de mim. O mais engraçado deles, o Ganso, perguntou:

- Algum problema, Aluízio?

- Nenhum. O moço já está indo embora.

O cara ficou furioso, fez o sinal de heavy metal com os dedinhos (ou me chamou de corno através da mímica, sei lá) e foi embora.

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